Segunda-feira, Novembro 07, 2011

De Cartas a um Jovem Poeta

Maio 14, 1904, Rome

Amar também é bom: porque o amor é difícil.

O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.

Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo.

Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar.

Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura.

Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo.

O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa.

Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente?

O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe.

Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos.

A fusão com outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles; são algo de acabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana.

Creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida.

(Cartas a Um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke)


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