Hoje eu estava pensando nas coisas do mundo e em nossa intolerância. Mario Quintana já dizia:
- Cada um pensa como pode.
Mas, agora me pergunto:
- Os meus pensamentos estão fazendo de mim e do mundo, uma pessoa melhor? O quanto eu me deixo influenciar pelos outros? O quanto eu estou nos outros, vivendo a vida dos outros?
Sinceramente? Dificílimo responder.
Primeiro, porque ao andar pelas ruas (eu ando e muito), o que mais ouço, são reclamações e fofocas. Mas, eu também me pego muitas vezes reclamando e falando coisas que a noite me arrependo amargamente.
E me olho no espelho e não gosto do que vejo.
Eu sou uma pessoa que está ficando para trás comigo mesma e assim não há como contribuir em nada, seja na minha vida ou na de qualquer outra pessoa.
Não sou perfeita e neste momento, não posso escrever sobre perfeição e nem que o mundo deve ser melhor, porque há sombras em mim.
Sombras que preciso entrar em contato e entender e aceitar e modificar.
É, eu tenho que ser sincera, em qualquer lugar que eu esteja, ou fale, ou escreva, e, isso me fez pensar muito nesse final de semana.
Acho que Fernando Pessoa explica com maestria o que desejo dizer:
Álvaro de Campos
Poema em Linha Reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.